O renomado cartunista Arnaldo Angeli Filho, um dos nomes mais influentes do traço brasileiro, completa 70 anos nesta segunda-feira (31). Nascido no bairro da Casa Verde, em São Paulo, o artista consolidou sua carreira ao retratar a sociedade com uma lente ácida, crua e profundamente urbana, transformando o cenário das artes gráficas no país.
Inspirado por gigantes como Millôr Fernandes e Ziraldo, Angeli iniciou sua trajetória na Folha de S.Paulo durante a década de 1970. Foi ali que nasceu a tira "Chiclete com Banana", que posteriormente evoluiu para uma revista independente, tornando-se um marco da contracultura e um espaço de criação para o coletivo "Los 3 Amigos", ao lado de Glauco, Laerte e Adão Iturrusgarai.
A obra de Angeli é marcada por personagens que se tornaram ícones da cultura nacional, como a autêntica Rê Bordosa, o punk ranzinza Bob Cuspe e os politicamente incorretos Skrotinhos. Para o cineasta Otto Guerra, a Rê Bordosa representou um "tapa na cara" da hipocrisia social, enquanto a atriz Grace Gianoukas destaca que o autor traduziu, com profundidade psicológica, as idiossincrasias e os paradoxos da existência brasileira.
O impacto de sua produção ultrapassou o papel, inspirando adaptações cinematográficas como "Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente" (2021) e "Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll". Segundo o cartunista Adão Iturrusgarai, Angeli foi fundamental ao trazer uma estética rock and roll e underground para um período ainda muito focado na resistência política contra a ditadura, mudando o rumo do cartoon nacional.
Em 2022, o artista anunciou sua aposentadoria após receber o diagnóstico de demência frontotemporal, uma condição neurodegenerativa que afeta a comunicação. Apesar do afastamento dos traços, o impacto de sua revolução gráfica permanece vivo, sendo celebrado por gerações de leitores e colegas de profissão que reconhecem sua genialidade como cronista dos tipos urbanos.