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Economia

Importação de aço da China ameaça empregos e siderurgia no Brasil

Setor produtivo denuncia desvio de rotas de comércio

Importação de aço da China ameaça empregos e siderurgia no Brasil
Foto: Agência Câmara de Notícias

BRASÍLIA – A sustentabilidade da siderurgia brasileira e a manutenção de postos de trabalho estão sob ameaça devido à crescente importação de aço chinês. O alerta foi emitido por representantes de trabalhadores e do setor industrial durante uma audiência pública realizada na Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados. Os debatedores apontaram a existência de concorrência desleal no mercado interno.

Para tentar blindar o mercado doméstico, o governo federal adota medidas antidumping e estabelece cotas tarifárias de importação. No início deste ano, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) chegou a definir alíquotas específicas para a entrada de produtos de origem chinesa, abrangendo itens como aços revestidos e laminados planos a frio.

Contudo, as barreiras tarifárias têm sido contornadas por meio de rotas alternativas de comércio. De acordo com Odair Mariano da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, o material ingressa no território nacional utilizando os países vizinhos. “O aço entra pelos países do Mercosul para aproveitar o livre-comércio do bloco. Não há barreira nem fiscalização para conter essa entrada”, denunciou o líder sindical, lembrando que o setor cortou cerca de 5 mil vagas de emprego em 2025.

A perda de competitividade também foi criticada por Jairo Rodrigues da Silva, presidente do Sindicato das Indústrias. Ele questionou a lógica comercial em que o Brasil fornece a matéria-prima bruta e a recompra processada por valores muito inferiores. “O Brasil exporta o minério de ferro bruto e o compra de volta industrializado, por um valor até 40% menor do que o produto nacional. É inconcebível o nosso minério voltar ao país mais barato do que o produzido pela indústria local”, argumentou.

O impacto socioeconômico dessa dinâmica atinge diretamente municípios dependentes da atividade metalúrgica. Haroldo Cruz Filho, presidente da Associação dos Processadores de Aço (Aproaço), exemplificou o cenário com o caso de Pinheiral (RJ), onde a fabricação de folha de flandres responde por 90% da receita. Com a concorrência do produto importado, que também entra via Zona Franca de Manaus, a arrecadação da cidade despencou 30% em dois anos. Segundo ele, nações vizinhas compram o aço da China e enviam produtos acabados, como latas, desestruturando a cadeia produtiva local.

Atualmente, o segmento siderúrgico nacional emprega aproximadamente 215 mil operários em cerca de 2,3 mil indústrias, com perfil majoritariamente masculino (85%), idade média de 40 anos e remuneração média de R$ 3,5 mil. Durante o debate, Alexandre Furtado Scarpelli, representante do Ministério do Trabalho e Emprego, confirmou que o setor de siderurgia permanece estagnado, destoando da reação positiva observada em outros ramos industriais.

Diante da gravidade do cenário, o deputado Max Lemos (União-RJ), proponente do debate, alertou que a crise na cadeia do aço pode desencadear demissões em massa em setores estratégicos, como a construção civil, o setor automotivo e as obras de infraestrutura. O parlamentar anunciou que solicitará informações detalhadas à Receita Federal e que pretende convocar ministros para dar andamento às discussões após o período eleitoral.