Faltam 28 dias para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e a semana eleitoral serviu um cardápio que nem o calor de Cuiabá em setembro explica: dado fiscal de ministro anexado a processo de candidatura, mentira requentada sobre urna circulando outra vez e R$ 5 bilhões de dinheiro público abastecendo campanhas que, curiosamente, têm menos mulheres do que na eleição passada. O eleitor mato-grossense que prepare o tereré: a leitura é longa e o gosto, amargo.
O episódio mais grave veio do Paraná, mas diz respeito a qualquer pessoa que já preencheu uma declaração de imposto de renda. Como mostrou a Agência Brasil, dados fiscais e bancários do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, obtidos numa quebra de sigilo de 2019 depois anulada pela Justiça, foram anexados ao registro de candidatura ao Senado do ex-procurador Deltan Dallagnol. A defesa do candidato alega que só pretendia demonstrar a elegibilidade dele; o ministro pede responsabilização, inclusive criminal; e a relatora do caso já devolveu o sigilo aos autos. Quem tem razão, a Justiça dirá — é dela essa palavra. O que não precisa esperar sentença é a constatação: informação protegida por lei virou peça de convencimento eleitoral, e sigilo que se rompe com tamanha desenvoltura não protege ministro nenhum. Nem o leitor.
Se parece briga distante, convém reler o noticiário daqui. No debate entre Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes, como noticiou este portal, as acusações também orbitaram sigilo e lobby. A moda pegou: discute-se menos o que o candidato pretende fazer pela saúde, pela estrada e pela escola, e mais o que cada um sabe da vida alheia.
A urna eletrônica, por sua vez, seguiu firme no posto de saco de pancadas oficial. O TSE precisou dar 24 horas para que publicações falsas sobre o equipamento fossem apagadas — mentira requentada que volta a cada eleição, feito decoração de festa junina fora de época. O mesmo tribunal validou o uso de inteligência artificial em vídeo de campanha e definiu regras sobre deep fakes: sinal de que a fábrica de ilusões trabalha em turno integral e a Justiça Eleitoral, em regime de plantão.
E há a conta que não fecha nem com a melhor colheita de soja: os partidos receberam R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral e, como noticiou este portal, as candidaturas femininas à Câmara caíram 24% em relação a 2022. Caixa recorde, representação minguando. Se dinheiro público fosse adubo, a lavoura da democracia deveria crescer para todos os lados — não encolher justamente onde a sub-representação já era crônica.
Registre-se, por justiça, que a régua institucional trabalhou para todos os lados da cerca: o TSE aprovou seis chapas presidenciais e suspendeu a campanha de Pablo Marçal, restabeleceu as de Wilson Grassi e Renan Santos após regularização, e o TRE do Rio cassou um registro por suposto vínculo com facção — caso que ainda percorrerá as instâncias, como manda o figurino. Decisão de tribunal não é torcida organizada: vale quando agrada e quando desagrada.
Nem tudo na semana coube na prateleira do lamento. As candidaturas de pessoas autistas saltaram de 13 para 70, o país soma 524 candidatos com deficiência, o eleitor com deficiência pode pedir transporte gratuito até 14 de setembro e a urna ganhou fonte mais legível, segundo o TSE. É a democracia miúda, de bastidor, avançando sem foguetório — enquanto o palanque grande gasta a voz discutindo o sigilo alheio.
Ao eleitor de Mato Grosso, o recado da semana chega no toque da viola de cocho: simples, sem enfeite. Desconfie de quem grita fraude sem apresentar prova e de quem transforma documento protegido em panfleto. O sigilo que ampara um ministro do Supremo é o mesmo que ampara o produtor de Sorriso, a professora de Várzea Grande e o aposentado do Porto. Em 4 de outubro, quem dá a palavra final não é o palanque, é a urna — e o voto, felizmente, continua sendo o único sigilo que ninguém consegue anexar a processo.